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prophecy
“In the time of sinful, soiled, and corrupt custom—in the future— The demons and spirits of the Planets will infest the world. At that time, the Demon King Pehar will be very powerful and dominant [his teachings will spread afar]. Thus he said. Because of the powerful influence of the Demon King Pehar, the cases of insanity and nervous disturbance will be many, the cases of violent death will also be great in number.
At that time half of the populations [of all nations] will become insane; most of the people will cut short their own lives by themselves (suicide); and at that time China will become a dark land.
Powerful men and wealth will follow the steps of the evil spirits and their three cousins; all Tibet will be broken into small pieces.
At that time, here in the Snow Country, the life and breath of the lamas, the officials, the teachers, the kings, the high officers, and those who follow the Buddhist teachings will be taken away (and persecuted). All the good teachers and virtuous persons will be cut in the middle by the evil demons. People will suffer excessively.”
Padmasambhava
At that time half of the populations [of all nations] will become insane; most of the people will cut short their own lives by themselves (suicide); and at that time China will become a dark land.
Powerful men and wealth will follow the steps of the evil spirits and their three cousins; all Tibet will be broken into small pieces.
At that time, here in the Snow Country, the life and breath of the lamas, the officials, the teachers, the kings, the high officers, and those who follow the Buddhist teachings will be taken away (and persecuted). All the good teachers and virtuous persons will be cut in the middle by the evil demons. People will suffer excessively.”
Padmasambhava
expressão
Na actual tecnosfera, a expressão configura-se cada vez mais como uma necessidade imperiosa em prejuízo de uma veleidade estética de um ego auto-confiante. Passado o assombro inicial da evidência esmagadora de um mundo real que nos pode afectar de forma aleatória e muitas vezes perigosa, foi-se instalando uma ansiedade ontológica sobre se de facto não estaremos presos na nossa própria representação do mundo – ou seja, se alguma vez seremos capazes de conhecer o mundo, para além do filtro necessário que constitui a nossa mente ou túnel de realidade. Muitas vezes sentimos que herdámos uma cabeça maior do que o mundo que nos rodeia (aparentemente), mas talvez o mundo seja mesmo mais vasto do que supomos. Como estamos a receber feedback a cada momento, tendemos a responder-lhe, através de uma recriação do universo que faça sentido para nós, consubstanciada quer em narrativas (daí a necessidade das ficções, outros tantos reais que se desdobram em miríades de labirintos que se bifurcam sem cessar), quer no que se pode denominar expressão artística, um diário dos sentidos. Ou seja, a expressão poderia construir-se simultaneamente como uma resposta e uma pergunta ao mundo, uma afirmação e um questionar permanente sobre a interacção que estabelecemos com o que nos rodeia. Ela é filha de uma tríade de necessidades: a da construção de uma identidade; a do reconhecimento da ideia de outro, como recipiente ou eco; e a da afirmação engravidada por um conteúdo significativo, ou seja, não basta dizer “estou aqui” ou “sou assim”, como o mero choro de uma criança, mas sim corporizar no mundo, no exterior, a assinatura única de uma emoção estética, de um acrescentar-se ao mundo com(o) um acto(r) feito de informação pura (o algo que não havia antes de si).
Ao exprimirmo-nos, mais do que tentarmos definir a nossa geo-localização no mapa mental de dois labirintos invisíveis – o do aparente real que nos toca e o simplesmente dos outros – estaremos a tentar cumprir a impossível demanda de ligar esse mesmo mapa ao território, que, recordemo-lo, não se confundem. Movemo-nos às cegas e vamos de encontro a algo, ou algo vem de encontro a nós. Ao nos apercebermos que existem outros, a urgência de uma identidade própria ganha a proporção de uma luta pela sobrevivência contra o redemoinho da uniformidade ou mesmo do anonimato avassalador. Temos medo de ser iguais, mas mais medo ainda de não contarmos, da insustentável leveza da nossa irrelevância, na voragem ou espuma dos dias. A procura da identidade, dos referentes que nos fazem dar um passo em frente na chamada do DNA, não constitui no entanto um fim em si mesmo, mas tão somente uma forma de estabelecer um chão de onde possamos pular na execução de um acto que agregue informação ao mundo – dos outros – e nos consiga apaziguar – mesmo que momentaneamente apenas – na ansiedade de ser. Por outras palavras, a identidade é um ponto de partida para fazermos qualquer coisa, não um ponto de chegada de uma série de sessões de psicoterapia patrocinadas pela insegurança. A questão é o que fazer connosco próprios, como nos tornarmos uma mais-valia – e sobretudo como e quem poderá servir de juiz ou crítico sobre tal propósito – a Arte pode continuar a existir sem críticos? É a avaliação da Arte o seu sustento ou o seu espartilho? Em última análise, exprimirmo-nos para quê? Que valor atribuir ao acto? Se todos se exprimem, então qual o sentido da expressão individual de cada um? Somos todos únicos, afinal. Estas questões são tão válidas como irrelevantes, dado que a expressão não nasce de uma escolha consciente, mas de uma pulsão visceral; nem advém necessariamente da linguagem, que constitui amiúde um entrave para a plena expressão artística, que bebe directamente do subconsciente. A pureza do acto criativo implica o silêncio do mundo, do burburinho constante da Razão a discutir consigo própria, eternamente incrédula perante um real que não consegue conformar sozinha. Assistimos aliás ao lento mas inexorável destronar da linguagem (e dos livros stricto sensu) como forma suprema de lidar e interagir com a realidade. O que até agora operava em quase exclusivo através da Arte – o deixar o subconsciente absorver e lidar com o fluxo do real sem a interferência de processos racionais, por exemplo – está a decantar-se para o grande meio de comunicação universal (a Internet, o meio natural de expressão actual, onde por enquanto apenas se fala, mas progressivamente se começa a escrever, desenhar, pintar, esculpir, animar, mostrar, pensar também) e assim a permear a consciência global – o mundo está a deixar de ser uma construção mental para ser acedido directamente através do som e da imagem, vectores de conhecimento tão válidos como as palavras. A Arte torna-se a grande interface com o conhecimento. E a expressão artística a sua gramática natural, a tradução dos sentimentos mais vitais que participam em vários graus na orgia da informação. Raiva, euforia, tristeza, compaixão. Sempre uma luta contra o medo, de cuja sombra não conseguimos nunca escapar, e uma manifestação do desejo, ou cobiça do ser, as duas forças primevas que nos movem. Queremos ser nós próprios (seja lá o que isso for, sob que forma for) num primeiro momento, mas queremos ser algo para o outro também (queremos o outro). Ser para eventualmente ter. A musa que inspira o artista é objecto de desejo paralelamente a ser dínamo de expressão. Esta constitui a suposta ponte entre um interior e outro interior, através do exterior – obrigatoriamente, também uma exposição, pois não nos podemos exprimir nesse sentido no espaço estrito do nosso palco íntimo. Trata-se de um grito as mais das vezes sem destinatário, apenas vivendo como condição necessária e suficiente da possibilidade de haver um. A expressão não deixa de ser uma marca de solidão. Não temos um corpo, somos um corpo. Limitados por essa fronteira, assombrados pela infinidade do que não é humano, procuramos propagar-nos como um fogo essencial alimentado pela febre do desejo, contrariando a nossa noção de fim. Exprimir-se é enganar a morte, desejar é a base do humano. E o desejo reage à beleza, não à verdade. Pois não é a vertigem da beleza que nos revela o abismo à beira do qual nos encontramos de olhos vendados pela verdade? E não é precisamente a beleza a musa da expressão? Se a nossa experiência constitui ou não uma soma ou uma subtracção de nós com o mundo, tal não é relevante, em última análise. Estamos todos sós, com os nossos órgãos internos e as nossas reacções químicas no cérebro, sujeitos à aleatoriedade das sinapses e aos efeitos das hormonas e ao nível de açúcar no sangue e com os sonhos de que não nos lembramos mas que importam e com uma carência absoluta de respostas e um desassossego indizível e impossível de satisfazer. As respostas mais simples explicam-nos como se constitui e forma o universo, as mais complexas fazem-nos corrigir um desenho ou lamentar um comentário ou sentir-nos aquecidos por dentro ou sorrir apesar do nevoeiro interior. A expressão é a dualidade incarnada da resposta e da pergunta, é a vida a falar com a vida, somos nós apesar de nós próprios. A história da nossa expressão é a história dos humanos, um de cada vez.
Assinemos o mundo.
nós somos a informação que produzimos
a obsessão de muitas pessoas em se medirem a si próprias, em se auto-analisarem, -controlarem, -vigiarem, -quantificarem, -observarem, é uma forma de provarem que mais facilmente existem na terceira pessoa do que na primeira. se somos o nosso único ponto de referência, como poderemos ter a certeza que não estamos (a ser) enganados, que somos pura consciência ou percepção? e ao considerar o meu cérebro como algo que existe em mim, o que é então "mim"?
estas considerações irrelevantes ganham acuidade com a proliferação de engenhos, físicos e virtuais, para executarem continuamente o nosso check-up existencial, através da infinita quantidade de informação que deitamos cá para fora, que armazenamos e que, em última análise, nos define aos olhos dos outros. ou seja, de nós próprios.
Data is truth. It calls you on your bullshit. And at its core, that seems to be what the quantified self is ultimately about.
más notícias para os ratos
apesar de o senhor achar que isto não vai chegar ao mainstream e que parece só bom para jogos e stuff, aqui o moi pensa que isto é mais um passo decisivo na direcção do inevitável: o corpo como derradeiro interface. homo ex machina.
big numbers
ultimamente, temos visto alguns números mesmo grandes invadir o nosso quotidiano, pouco habituado a lidar com tantos zeros à direita. tratou-se mesmo de uma espécie de chuva de meteoritos abstractos, já que a coisa começou no espaço e se veio espalhar no meio da nossa doméstica noção de escala. de memória, primeiro foi o nada, o Grande Vazio: uma zona no espaço que contém absolutamente zero, nem matéria normal, nem anti-matéria, não há lá nicles, patavina, peva, nem com o google a gente se orienta naquele nenhures; e mede um bilião de anos-luz de um lado ao outro. grandito, portanto. depois, claro, foi a máquina do fim do mundo, o Grande Desatomizador Suíço, mais conhecido como LHC, que nos trouxe números impressionantes: o do femtossegundo, por exemplo, que corresponde a um milionésimo de um bilionésimo de segundo (tempo médio de uma cópula bem sucedida entre um bosão e uma antipartícula; tempo que demorou durão barroso a ponderar aceitar o emprego em bruxelas), mas também a velocidade a que atira os coitados dos protões uns contra os outros - 99.99% da velocidade da luz - gerando um calor 100 000 vezes superior ao do núcleo do sol, e a própria dimensão da coisa - com 27 quilómetros de diâmetro, é a maior máquina do mundo. da ciência, saltámos para aqui, para a net, onde ficámos a saber que já existe (pelo menos) 1 trilião de rivais deste blob, o que, convenhamos, torna a questão da concorrência algo mais metafísico (fazendo bem as contas, é mais do que um site por habitante da Terra). finalmente, a economia, a ciência dos números com que realmente fazemos contas, acabou por nos trair e lançar-nos sem cerimónia na arena do impressionismo abstracto: das notas de 100 biliões de dólares do Zimbabwe (com a sua inflaçãozinha de 2,2 milhões percentuais por ano e único país do mundo onde um computador pode custar 1,2 quadriliões de dólares zimbabwenses), passando pelos já mui comentados 700 biliões de dólares (americanos, estes) para tentar salvar uma situação criada por senhores que não deixaram de ganhar os seus 480 milhões de dólares nos últimos oito anos, apesar de deixarem afundar a sua empresa, até um dos números mais difíceis de imaginar de todos (e não estamos a falar de partículas subatómicas no universo): os mais de 10 triliões de dólares da dívida pública americana (ao ponto do "relógio da dívida" existente em Nova Iorque para a ir acompanhando ter ficado sem dígitos suficientes para acomodar o novo número). são números grandes. tanto, aliás, que se tornam em entidades abstractas, descorporalizadas, aparentemente distantes de nós. no fundo, parece que apenas desse modo eles podem sequer existir. mas a distância real a que eles estão deve equacionar-se com este número final, aquele que se torna menos abstracto cada dia que passa. e que nos vai tornando abstractos a nós. klaatu barada nikto.
a geração C e os produtos fãbricados
a internet é a nova torre de babel. é a nova tentativa de tocar os céus, sob uma linguagem unificada. desde que as pessoas se entendam, elas trabalharão juntas naturalmente. e o que começa online, continua offline. The internet sensibility is infecting the world of physical stuff. estes dois artigos, interligados, fornecem uma visão clara sobre o que está para acontecer, no verdadeiro mundo, basta ler para crer.
a geração C é definida, não pela sua idade mas pela sua actividade. tem a ver com comunidade, conectividade, criatividade, conteúdo, controlo, complexidade. Gen C make their own content. Gen C form strong communities, and care about communication. They want to be connected. Gen C take on broadcast media on their own terms: They get involved, and are happy to make their own celebrities. Gen C control their own lives; they’re happy with complexity and continuous partial attention. Gen C work and live creativity: they work in creative industries, don’t look down on making and crafting, and want to adapt mass market products in acts of co-creation. e os produtos para esta geração podem ser tratados como pessoas e terem os seus próprios seguidores, ainda ao nível da sua criação e desenvolvimento. estar envolvido desde o início, participar, beneficiar. esta é uma oportunidade incrível para os dois lados, consumidores e produtores, pois passam a falar a mesma língua - e a trabalhar juntos, consequentemente.
é o futuro, all over again.
a geração C é definida, não pela sua idade mas pela sua actividade. tem a ver com comunidade, conectividade, criatividade, conteúdo, controlo, complexidade. Gen C make their own content. Gen C form strong communities, and care about communication. They want to be connected. Gen C take on broadcast media on their own terms: They get involved, and are happy to make their own celebrities. Gen C control their own lives; they’re happy with complexity and continuous partial attention. Gen C work and live creativity: they work in creative industries, don’t look down on making and crafting, and want to adapt mass market products in acts of co-creation. e os produtos para esta geração podem ser tratados como pessoas e terem os seus próprios seguidores, ainda ao nível da sua criação e desenvolvimento. estar envolvido desde o início, participar, beneficiar. esta é uma oportunidade incrível para os dois lados, consumidores e produtores, pois passam a falar a mesma língua - e a trabalhar juntos, consequentemente.
é o futuro, all over again.
made in china
ler ou não ler, eis a questão
está toda a gente muito preocupada com a questão da leitura - que não me parece em perigo -, mas eu gostaria de mudar ligeiramente o foco para o outro lado da página, para o lado do autor - é normal que não se queira ler textos muito longos na net por prazer, ela ainda não está configurada como ferramenta para isso por enquanto; o que já não é tão normal é não haver aparentemente nenhuma reacção por parte dos produtores de conteúdo para o aspecto de o meio ser hoje literalmente a mensagem. ou seja, a grande transformação terá de vir deles, dos autores; o conceito de "conteúdo" tem de ser alterado, adaptado às novas plataformas (mesmo na leitura hedonista); o conceito actual de "livro" também. como diz um adolescente americano que passa o tempo na net, {“The Web is more about a conversation,” he said. “Books are more one-way.”}
depois, a questão fascinante não é propriamente a da leitura, mas sim a da linguagem. estamos a assistir ao lento mas inexorável destronar da linguagem (e dos livros stricto sensu) como forma suprema de lidar e interagir com a realidade. o que até agora operava em quase exclusivo através da Arte - o deixar o subconsciente absorver e lidar com o fluxo do real sem interferência de processos racionais, por exemplo - está a decantar-se para o grande meio de comunicação universal e assim a permear a consciência global - o mundo está a deixar de ser uma construcão mental para ser acedido directamente através do som e da imagem. citação de apoio: {Some literacy experts say that reading itself should be redefined. Interpreting videos or pictures, they say, may be as important a skill as analyzing a novel or a poem.“Kids are using sound and images so they have a world of ideas to put together that aren’t necessarily language oriented,” said Donna E. Alvermann, a professor of language and literacy education at the University of Georgia. “Books aren’t out of the picture, but they’re only one way of experiencing information in the world today.”} a estupefacção desta ideia tão simples e óbvia é apenas uma reacção à longa herança histórica das sucessivas políticas de educação societárias da Humanidade, que foram impondo um sistema de castas intelectuais com efectivo poder secular (já há muito tempo que informação é poder) ao abstractizar a relação entre o homem e o seu ambiente. a culpa não é da filosofia, mas da política, a chamada mais nobre das ciências humanas. sem querer (ou poder) ir mais fundo, direi apenas que vivemos tempos fascinantes de mudança e que as novas gerações já estão a ser equipadas para lidar com a(s) sua(s) realidade(s), não necessariamente através da internet, mas através do que a internet já possibilitou, já desencadeou nos seus processos mentais. a internet é/foi/será a emancipadora das cabeças dos miúdos e miúdas que vão gerir esta coisa. só por isso já valeu a pena.
mensagens relacionadas com este tema aqui, aqui e aqui, para quem se quiser dar ao trabalho ingrato.
o salto
uma das questões que mais me interessa tem a ver com a forma como lidamos com o mundo através da internet. creio existir um efeito cumulativo no passar do tempo, um aspecto residual de ruído de fundo que vai imperceptivelmente aumentando, dado que acompanha necessariamente o crescimento demográfico humano. o mundo parece mais complexo hoje em dia, mas na verdade está tão-somente mais barulhento e mais coercivamente intrusivo, por razões económicas. assim, uma questão será saber se o advento da internet nos ajuda a compreendê-lo melhor, constituindo a ferramenta natural para receber toda essa heterogeneidade tumultuosa, ou se, pelo contrário, ela contribui para a percepção de uma realidade atomizada e impossível de apreender na sua completude, dada a voracidade com que é traduzida pelo que se chama informação. este interessante artigo (via efeitos secundários) põe a questão de como a nossa forma mais comum de utilizar a internet justamente como fonte de informação poderá estar de algum modo a conformar a maneira de organizarmos o nosso pensamento, partindo do pressuposto que o fazemos de uma forma demasiado diletante e ligeira, em prejuízo de uma leitura (literal) lenta e profunda que por sua vez igualaria uma forma de pensar igualmente profunda. ou seja, a procura desmedida pela eficácia nos resultados incorreria em tal Taylorismo que nos transformaria a nós em meras pseudo-máquinas pensantes inferiores aos modelos que produzimos. a dúvida e o medo são pertinentes, porque julgo que nada está a ser feito a nível pedagógico para acompanhar o percurso de aprendizagem dos alunos neste novo pluri-meio, que necessita de tanto rigor, apoio e avaliação como a busca arcana directa em manuscritos e a audição activa de discursos orais. além disso, existe o perigo de a maior parte da informação ser controlada, não tanto ao nível do conteúdo mas sobretudo ao nível da forma de acesso para o público em geral. ou seja, acredito que a informação válida continuará sempre a existir, mas terá a sua disponibilidade restrita a diversos níveis por um único centro decisor, o que convida a abusos.
existem aqui diversos pontos válidos para discussão, mas não entrarei em profundidade em qualquer deles por agora. interessa ponderar contudo o seguinte: a internet tem semelhanças com um infindável mercado público, onde tudo ou quase tudo estivesse em maior ou menos exposição e à venda (por mui variados géneros de preços), pelo que as regras mais elementares de conduta num mercado real também se aplicam aqui, tal como sejam a discrição, a prudência, o sentido crítico na avaliação das mercadorias e do discurso - berrado ou sussurrado - do vendedor, a atenção ao que é dito e como é dito, o cuidado com os recantos mais sombreados, as zonas de silêncio súbito, as multidões, enfurecidas ou não, até as disputas ou execuções públicas. ou seja, cada um vai ao mercado com uma intenção diferente e de lá traz coisas diferentes. é tudo uma questão de disciplina. se não compramos tudo o que há num hipermercado apesar de eles estarem desenhados para esse efeito, também não "compramos" tudo o que há na net. podemos de facto entrar por causa de lenços de papel e sair de lá com vinho, mas cada um tem de medir a sua actuação e responsabilizar-se pelas suas tentações. ao contrário do que possa parecer, a net tem a vocação para se tornar uma arena de responsabilidade, já que tem memória de tudo. temos, assim, de nos tornar filtros para nós mesmos. em vez de diluir a atenção e prejudicar o sentido crítico, a net pode e deve estimular a concentração e a análise exigente - são aliás as únicas ferramentas que nos podem orientar nos labirintos mercantis. ou seja, o medo de que a net prejudique a nossa capacidade de reflexão profunda e acabe por nos tirar tempo ao dar-nos coisas instantaneamente advém de uma visão limitada do que é a experiência online, uma visão, digamos, um pouco retrógrada, porque no fundo totalmente hipnotizada pelas novas possibilidades sem as conseguir digerir ou sistematizar. porque justamente a internet permite um comportamento em tudo semelhante ao do estudioso paciente e sistemático - não se deve confundir falta de força de vontade com o sucumbir perante o assalto de certos dispositivos de marketing que se esforçam por fazer parecer que estão a acontecer coisas demais demasiado rapidamente e que por conseguinte teremos de agir sem demora (e sem critério), comprando ou falando. o tempo é um factor a favor da net, não contra ela. a escolha do que se lê permanece, acrescida da nova sapiência sobre a redacção oral, ou seja, a mais recente maneira das pessoas dialogarem, utilizando os processos e muletas dessa forma de comunicação, mas simplesmente fazendo-o por escrito, o que dá origem a um sem-número de equívocos, já que apenas a presença física é suficientemente rica para comunicar em plenitude sem ambiguidades não desejadas (nunca é só a boca que fala). ou seja, os famosos comentários em blogues ou trocas de opiniões em fóruns são muitas vezes tão válidos como conversas de café, apressadas, incoerentes e obscurecidas pelo ruído de fundo - estimulantes, essenciais, amiúde iluminadoras, mas também tão vivas que precisam de som e de vida tão curta que o seu registo é, as mais das vezes, imediatamente esquecido. o que não acontece aqui, neste mundo que nunca esquece. a capacidade para esquecer pode ser equivalente em relevância à capacidade para lembrar. e na internet fala-se, não se escreve - pelo menos por enquanto. o que não quer dizer que não se possa e deva ler. por fim, é preciso relembrar que o mapa não é o território. a net é hoje o melhor dos mapas, mas ela não se substitui à experiência directa, ao contacto imediato com o concreto e com as suas misteriosas riquezas e murmúrios. citado no texto a que aludi, Sócrates lamenta que a escrita (e a leitura) diminuam a experiência do vivido oralmente e a sua consequente memória - ou seja, tornaria as pessoas mais preguiçosas e iludidas com o seu próprio conhecimento. cada salto tecnológico parece confirmar isto. e contudo, quando se salta aterra-se em território estranho e cada território é mais rico em possibilidades do que se podia antever quando flectimos os joelhos mentais. o truque, o busílis, está em nunca abandonarmos os passeios a pé mesmo quando dispomos de uma experiência de estimulação/simulação total ligada ao córtex cerebral que nos sirva de mapa - agora que podemos levar o mapa connosco, podemos talvez ter uma melhor percepção do que é, em si, uma percepção do mundo. a net dá-nos mais informação sobre o mundo mas nunca nos dará o mundo a que é necessariamente referente. quanto muito, dá-nos o mundo que ela própria constitui. a coisa está em como a lemos. porque, na verdade, não é apenas o que lemos que nos transforma, mas o modo como o fazemos. não interessa ler muito, se não vai ficar nada. parece melhor escolher apenas um caminho de início e percorrê-lo devagar. o salto acontece sem darmos muito por isso.
existem aqui diversos pontos válidos para discussão, mas não entrarei em profundidade em qualquer deles por agora. interessa ponderar contudo o seguinte: a internet tem semelhanças com um infindável mercado público, onde tudo ou quase tudo estivesse em maior ou menos exposição e à venda (por mui variados géneros de preços), pelo que as regras mais elementares de conduta num mercado real também se aplicam aqui, tal como sejam a discrição, a prudência, o sentido crítico na avaliação das mercadorias e do discurso - berrado ou sussurrado - do vendedor, a atenção ao que é dito e como é dito, o cuidado com os recantos mais sombreados, as zonas de silêncio súbito, as multidões, enfurecidas ou não, até as disputas ou execuções públicas. ou seja, cada um vai ao mercado com uma intenção diferente e de lá traz coisas diferentes. é tudo uma questão de disciplina. se não compramos tudo o que há num hipermercado apesar de eles estarem desenhados para esse efeito, também não "compramos" tudo o que há na net. podemos de facto entrar por causa de lenços de papel e sair de lá com vinho, mas cada um tem de medir a sua actuação e responsabilizar-se pelas suas tentações. ao contrário do que possa parecer, a net tem a vocação para se tornar uma arena de responsabilidade, já que tem memória de tudo. temos, assim, de nos tornar filtros para nós mesmos. em vez de diluir a atenção e prejudicar o sentido crítico, a net pode e deve estimular a concentração e a análise exigente - são aliás as únicas ferramentas que nos podem orientar nos labirintos mercantis. ou seja, o medo de que a net prejudique a nossa capacidade de reflexão profunda e acabe por nos tirar tempo ao dar-nos coisas instantaneamente advém de uma visão limitada do que é a experiência online, uma visão, digamos, um pouco retrógrada, porque no fundo totalmente hipnotizada pelas novas possibilidades sem as conseguir digerir ou sistematizar. porque justamente a internet permite um comportamento em tudo semelhante ao do estudioso paciente e sistemático - não se deve confundir falta de força de vontade com o sucumbir perante o assalto de certos dispositivos de marketing que se esforçam por fazer parecer que estão a acontecer coisas demais demasiado rapidamente e que por conseguinte teremos de agir sem demora (e sem critério), comprando ou falando. o tempo é um factor a favor da net, não contra ela. a escolha do que se lê permanece, acrescida da nova sapiência sobre a redacção oral, ou seja, a mais recente maneira das pessoas dialogarem, utilizando os processos e muletas dessa forma de comunicação, mas simplesmente fazendo-o por escrito, o que dá origem a um sem-número de equívocos, já que apenas a presença física é suficientemente rica para comunicar em plenitude sem ambiguidades não desejadas (nunca é só a boca que fala). ou seja, os famosos comentários em blogues ou trocas de opiniões em fóruns são muitas vezes tão válidos como conversas de café, apressadas, incoerentes e obscurecidas pelo ruído de fundo - estimulantes, essenciais, amiúde iluminadoras, mas também tão vivas que precisam de som e de vida tão curta que o seu registo é, as mais das vezes, imediatamente esquecido. o que não acontece aqui, neste mundo que nunca esquece. a capacidade para esquecer pode ser equivalente em relevância à capacidade para lembrar. e na internet fala-se, não se escreve - pelo menos por enquanto. o que não quer dizer que não se possa e deva ler. por fim, é preciso relembrar que o mapa não é o território. a net é hoje o melhor dos mapas, mas ela não se substitui à experiência directa, ao contacto imediato com o concreto e com as suas misteriosas riquezas e murmúrios. citado no texto a que aludi, Sócrates lamenta que a escrita (e a leitura) diminuam a experiência do vivido oralmente e a sua consequente memória - ou seja, tornaria as pessoas mais preguiçosas e iludidas com o seu próprio conhecimento. cada salto tecnológico parece confirmar isto. e contudo, quando se salta aterra-se em território estranho e cada território é mais rico em possibilidades do que se podia antever quando flectimos os joelhos mentais. o truque, o busílis, está em nunca abandonarmos os passeios a pé mesmo quando dispomos de uma experiência de estimulação/simulação total ligada ao córtex cerebral que nos sirva de mapa - agora que podemos levar o mapa connosco, podemos talvez ter uma melhor percepção do que é, em si, uma percepção do mundo. a net dá-nos mais informação sobre o mundo mas nunca nos dará o mundo a que é necessariamente referente. quanto muito, dá-nos o mundo que ela própria constitui. a coisa está em como a lemos. porque, na verdade, não é apenas o que lemos que nos transforma, mas o modo como o fazemos. não interessa ler muito, se não vai ficar nada. parece melhor escolher apenas um caminho de início e percorrê-lo devagar. o salto acontece sem darmos muito por isso.
mundo fantasma
pode não parecer à primeira vista, mas estamos em pleno período de decomposição. aos poucos, estamos a ser decompostos em informação e a deixar um rasto - que é farejado, seguido e usado por terceiros, desconhecidos ou não, com boas ou más intenções. a pretensa sociedade da informação faz-nos crer que não somos mais que a soma das nossas partes, ou seja, que podemos ser reduzidos a partículas de informação diversificada. a sombra virtual que projectamos está a tornar-se cada vez mais importante na aferição que outros fazem de nós e implicitamente na sua interferência na nossa vida. ou seja, "quem" somos para os outros tem a ver com a quantidade (e qualidade) da informação que deixamos atrás de nós. mas esse "rasto" também é nosso, faz parte da nossa identidade e por isso deve ser protegido. coisa que está a deixar de acontecer, dando nós por isso ou não. cada vez mais temos de ser estrategas da nossa própria aleatoriedade, se nos queremos manter relativamente livres. tudo isto a propósito deste excelente (e curto, vá) artigo, ainda na wired.
"We all have shadow selves living in the data banks of hundreds of corporations' information brokers -- information about us that is both surprisingly personal and uncannily complete -- except for the errors that you can neither see nor correct. What happens to our data happens to ourselves."
"Who controls our data controls our lives."
" (...) most people either don't realize the extent their privacy is being violated or don't have any real choice."
"We all have shadow selves living in the data banks of hundreds of corporations' information brokers -- information about us that is both surprisingly personal and uncannily complete -- except for the errors that you can neither see nor correct. What happens to our data happens to ourselves."
"Who controls our data controls our lives."
" (...) most people either don't realize the extent their privacy is being violated or don't have any real choice."
le roi est mort! vive le moi!
camaradas, é a revolução. nós morremos, eu nasci.
vamos ver quanto duro. não estou habituado a golpes de estado do ego. e há murmúrios nas sombras.
vamos ver quanto duro. não estou habituado a golpes de estado do ego. e há murmúrios nas sombras.
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