Johann Hari:
" The book -- the physical paper book -- is being circled by a shoal of sharks, with sales down 9 percent this year alone. It's being chewed by the e-book. It's being gored by the death of the bookshop and the library. And most importantly, the mental space it occupied is being eroded by the thousand Weapons of Mass Distraction that surround us all.
[...]
A book has a different relationship to time than a TV show or a Facebook update. It says that something was worth taking from the endless torrent of data and laying down on an object that will still look the same a hundred years from now.
[...]
That's why we need books, and why I believe they will survive. Because most humans have a desire to engage in deep thought and deep concentration. Those muscles are necessary for deep feeling and deep engagement. Most humans don't just want mental snacks forever; they also want meals.
[...]
We are the first generation to ever use the internet, and when I look at how we are reacting to it, I keep thinking of the Inuit communities I met in the Arctic, who were given alcohol and sugar for the first time a generation ago, and guzzled them so rapidly they were now sunk in obesity and alcoholism."
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the times they are a-changin'
yep. pelo menos no mundo dos livros, estão. na prática, grassa o desespero. se por um lado, cada vez menos pessoas lêem livros (e dizem que steve jobs nunca se engana), mesmo as pessoas que costumam ler livros estão a trocá-los por outras plataformas de leitura (esta, por exemplo). as pessoas continuam a gostar de ler, o que estão é a deixar de ler livros. por outro lado, os livros que ainda se vendem estão cada vez mais a ser publicados pelos mesmos grandes grupos editoriais. e aí, o que acontece? os accionistas estão habituados a receber os seus dividendos todos os quatrimestres e a pressão é muita para se fazer dinheiro, já, já. grassa o desespero, portanto.
é por isso que, nestes tempos interessantes, se assistem a iniciativas inéditas, como sejam o departamento de literatura infantil da simon&schuster fazer um acordo com o gotham group, uma empresa de gestão, para conceber "projectos" editoriais com potencial para outros media (cinema, tv, comics) logo de início, ainda antes de serem escritos - ou seja, o livro passa a ser um mero parceiro dos outros contentores, na caça ao mercado mais global possível.
"In exchange for a percentage of the revenues, Simon & Schuster may agree to publish a book long before it is written, based on an assurance from the Gotham Group that it has Hollywood potential.Simon & Schuster will also receive money when its children’s books are turned into video games, comic books or other properties."
outra iniciativa curiosa e oh-tão-l'air du jour, parte da harpercollins e consiste numa comunidade social online para descobrir/estimular novos autores, críticos e editores, a authonomy. os membros são encorajados a criar perfis literariamente honestos e a comentar, criticar ou simplesmente revelar novos talentos em todas as áreas da edição. e os melhores, a editora publica, presumivel e eventualmente.
"The book world is kept alive by those who search out, digest and spread the word about the best new books – authonomy invites you to join our community, champion the best new writing and build a personal profile that really reflects your tastes, opinions and talent-spotting skills."
há duas coisas boas nisto: tratar um livro como contentor de conteúdo, passe a redundância, passível de ser transformado e divulgado de nóveis formas; e retirar à alçada exclusiva das editoras a mediatização de novos valores, fazendo-os simplesmente emergir à superfície da net.
há uma coisa má nisto: escrever um livro é um acto solitário, lento e doloroso e delicado, que precisa de silêncio e tempo. e tudo isto me soa a barulhento demais. mas isso sou eu.
é por isso que, nestes tempos interessantes, se assistem a iniciativas inéditas, como sejam o departamento de literatura infantil da simon&schuster fazer um acordo com o gotham group, uma empresa de gestão, para conceber "projectos" editoriais com potencial para outros media (cinema, tv, comics) logo de início, ainda antes de serem escritos - ou seja, o livro passa a ser um mero parceiro dos outros contentores, na caça ao mercado mais global possível.
"In exchange for a percentage of the revenues, Simon & Schuster may agree to publish a book long before it is written, based on an assurance from the Gotham Group that it has Hollywood potential.Simon & Schuster will also receive money when its children’s books are turned into video games, comic books or other properties."
outra iniciativa curiosa e oh-tão-l'air du jour, parte da harpercollins e consiste numa comunidade social online para descobrir/estimular novos autores, críticos e editores, a authonomy. os membros são encorajados a criar perfis literariamente honestos e a comentar, criticar ou simplesmente revelar novos talentos em todas as áreas da edição. e os melhores, a editora publica, presumivel e eventualmente.
"The book world is kept alive by those who search out, digest and spread the word about the best new books – authonomy invites you to join our community, champion the best new writing and build a personal profile that really reflects your tastes, opinions and talent-spotting skills."
há duas coisas boas nisto: tratar um livro como contentor de conteúdo, passe a redundância, passível de ser transformado e divulgado de nóveis formas; e retirar à alçada exclusiva das editoras a mediatização de novos valores, fazendo-os simplesmente emergir à superfície da net.
há uma coisa má nisto: escrever um livro é um acto solitário, lento e doloroso e delicado, que precisa de silêncio e tempo. e tudo isto me soa a barulhento demais. mas isso sou eu.
knojo
já se sabia que ler dá bastante jeito (é, tipo, como uma casa). podem-se ler as legendas dum filme estrangeiro legendado em português, dá para ver a data de validade dum preservativo, serve para se empurrar uma porta em vez de puxar (embora às vezes tanto faça), podem ler-se os direitos a um mau, ajuda a perceber o enredo do Tio Patinhas, poupa ter que comprar um jornal desportivo (lê-se as parangonas, pois claro), é bom quando se recebe um recado escrito, ajuda quando se vai de viagem nas placas indicativas ("outras direcções" dá sempre jeito), evitam-se complicações nos acordos prenupciais, enfim, é um ror de utilidades e maravilhas. agora descobriram que até é igual (ou melhor) a ver uma cena que mete nojo na televisão (ou no cinema, ou na interneta). explicando: os cientistas dos países baixos fizeram umas experiências que mostram que mostrar umas cenas nojentas - tipo provar uma coisa que sabe mal - e ler e imaginar outras cenas nojentas - tipo ir de encontro a um bêbado que nos vomita na boca - provoca o mesmo tipo de actividade no cérebro, e logo na insula anterior. hã? ess'agora. afinal ler tem muito que se lhe diga, não é só aquela cena ultra-arcana que se usava para torturar criancinhas na escola. plos vistos, ainda dá jeito. é pena é ser só para cenas nojentas e não daquelas-que-a-gente-sabe, porque tenho a casa repleta de livros e a televisão avariada. mas tenho fé na ciência. e no cérebro.
ler ou não ler, eis a questão
está toda a gente muito preocupada com a questão da leitura - que não me parece em perigo -, mas eu gostaria de mudar ligeiramente o foco para o outro lado da página, para o lado do autor - é normal que não se queira ler textos muito longos na net por prazer, ela ainda não está configurada como ferramenta para isso por enquanto; o que já não é tão normal é não haver aparentemente nenhuma reacção por parte dos produtores de conteúdo para o aspecto de o meio ser hoje literalmente a mensagem. ou seja, a grande transformação terá de vir deles, dos autores; o conceito de "conteúdo" tem de ser alterado, adaptado às novas plataformas (mesmo na leitura hedonista); o conceito actual de "livro" também. como diz um adolescente americano que passa o tempo na net, {“The Web is more about a conversation,” he said. “Books are more one-way.”}
depois, a questão fascinante não é propriamente a da leitura, mas sim a da linguagem. estamos a assistir ao lento mas inexorável destronar da linguagem (e dos livros stricto sensu) como forma suprema de lidar e interagir com a realidade. o que até agora operava em quase exclusivo através da Arte - o deixar o subconsciente absorver e lidar com o fluxo do real sem interferência de processos racionais, por exemplo - está a decantar-se para o grande meio de comunicação universal e assim a permear a consciência global - o mundo está a deixar de ser uma construcão mental para ser acedido directamente através do som e da imagem. citação de apoio: {Some literacy experts say that reading itself should be redefined. Interpreting videos or pictures, they say, may be as important a skill as analyzing a novel or a poem.“Kids are using sound and images so they have a world of ideas to put together that aren’t necessarily language oriented,” said Donna E. Alvermann, a professor of language and literacy education at the University of Georgia. “Books aren’t out of the picture, but they’re only one way of experiencing information in the world today.”} a estupefacção desta ideia tão simples e óbvia é apenas uma reacção à longa herança histórica das sucessivas políticas de educação societárias da Humanidade, que foram impondo um sistema de castas intelectuais com efectivo poder secular (já há muito tempo que informação é poder) ao abstractizar a relação entre o homem e o seu ambiente. a culpa não é da filosofia, mas da política, a chamada mais nobre das ciências humanas. sem querer (ou poder) ir mais fundo, direi apenas que vivemos tempos fascinantes de mudança e que as novas gerações já estão a ser equipadas para lidar com a(s) sua(s) realidade(s), não necessariamente através da internet, mas através do que a internet já possibilitou, já desencadeou nos seus processos mentais. a internet é/foi/será a emancipadora das cabeças dos miúdos e miúdas que vão gerir esta coisa. só por isso já valeu a pena.
mensagens relacionadas com este tema aqui, aqui e aqui, para quem se quiser dar ao trabalho ingrato.
o salto
uma das questões que mais me interessa tem a ver com a forma como lidamos com o mundo através da internet. creio existir um efeito cumulativo no passar do tempo, um aspecto residual de ruído de fundo que vai imperceptivelmente aumentando, dado que acompanha necessariamente o crescimento demográfico humano. o mundo parece mais complexo hoje em dia, mas na verdade está tão-somente mais barulhento e mais coercivamente intrusivo, por razões económicas. assim, uma questão será saber se o advento da internet nos ajuda a compreendê-lo melhor, constituindo a ferramenta natural para receber toda essa heterogeneidade tumultuosa, ou se, pelo contrário, ela contribui para a percepção de uma realidade atomizada e impossível de apreender na sua completude, dada a voracidade com que é traduzida pelo que se chama informação. este interessante artigo (via efeitos secundários) põe a questão de como a nossa forma mais comum de utilizar a internet justamente como fonte de informação poderá estar de algum modo a conformar a maneira de organizarmos o nosso pensamento, partindo do pressuposto que o fazemos de uma forma demasiado diletante e ligeira, em prejuízo de uma leitura (literal) lenta e profunda que por sua vez igualaria uma forma de pensar igualmente profunda. ou seja, a procura desmedida pela eficácia nos resultados incorreria em tal Taylorismo que nos transformaria a nós em meras pseudo-máquinas pensantes inferiores aos modelos que produzimos. a dúvida e o medo são pertinentes, porque julgo que nada está a ser feito a nível pedagógico para acompanhar o percurso de aprendizagem dos alunos neste novo pluri-meio, que necessita de tanto rigor, apoio e avaliação como a busca arcana directa em manuscritos e a audição activa de discursos orais. além disso, existe o perigo de a maior parte da informação ser controlada, não tanto ao nível do conteúdo mas sobretudo ao nível da forma de acesso para o público em geral. ou seja, acredito que a informação válida continuará sempre a existir, mas terá a sua disponibilidade restrita a diversos níveis por um único centro decisor, o que convida a abusos.
existem aqui diversos pontos válidos para discussão, mas não entrarei em profundidade em qualquer deles por agora. interessa ponderar contudo o seguinte: a internet tem semelhanças com um infindável mercado público, onde tudo ou quase tudo estivesse em maior ou menos exposição e à venda (por mui variados géneros de preços), pelo que as regras mais elementares de conduta num mercado real também se aplicam aqui, tal como sejam a discrição, a prudência, o sentido crítico na avaliação das mercadorias e do discurso - berrado ou sussurrado - do vendedor, a atenção ao que é dito e como é dito, o cuidado com os recantos mais sombreados, as zonas de silêncio súbito, as multidões, enfurecidas ou não, até as disputas ou execuções públicas. ou seja, cada um vai ao mercado com uma intenção diferente e de lá traz coisas diferentes. é tudo uma questão de disciplina. se não compramos tudo o que há num hipermercado apesar de eles estarem desenhados para esse efeito, também não "compramos" tudo o que há na net. podemos de facto entrar por causa de lenços de papel e sair de lá com vinho, mas cada um tem de medir a sua actuação e responsabilizar-se pelas suas tentações. ao contrário do que possa parecer, a net tem a vocação para se tornar uma arena de responsabilidade, já que tem memória de tudo. temos, assim, de nos tornar filtros para nós mesmos. em vez de diluir a atenção e prejudicar o sentido crítico, a net pode e deve estimular a concentração e a análise exigente - são aliás as únicas ferramentas que nos podem orientar nos labirintos mercantis. ou seja, o medo de que a net prejudique a nossa capacidade de reflexão profunda e acabe por nos tirar tempo ao dar-nos coisas instantaneamente advém de uma visão limitada do que é a experiência online, uma visão, digamos, um pouco retrógrada, porque no fundo totalmente hipnotizada pelas novas possibilidades sem as conseguir digerir ou sistematizar. porque justamente a internet permite um comportamento em tudo semelhante ao do estudioso paciente e sistemático - não se deve confundir falta de força de vontade com o sucumbir perante o assalto de certos dispositivos de marketing que se esforçam por fazer parecer que estão a acontecer coisas demais demasiado rapidamente e que por conseguinte teremos de agir sem demora (e sem critério), comprando ou falando. o tempo é um factor a favor da net, não contra ela. a escolha do que se lê permanece, acrescida da nova sapiência sobre a redacção oral, ou seja, a mais recente maneira das pessoas dialogarem, utilizando os processos e muletas dessa forma de comunicação, mas simplesmente fazendo-o por escrito, o que dá origem a um sem-número de equívocos, já que apenas a presença física é suficientemente rica para comunicar em plenitude sem ambiguidades não desejadas (nunca é só a boca que fala). ou seja, os famosos comentários em blogues ou trocas de opiniões em fóruns são muitas vezes tão válidos como conversas de café, apressadas, incoerentes e obscurecidas pelo ruído de fundo - estimulantes, essenciais, amiúde iluminadoras, mas também tão vivas que precisam de som e de vida tão curta que o seu registo é, as mais das vezes, imediatamente esquecido. o que não acontece aqui, neste mundo que nunca esquece. a capacidade para esquecer pode ser equivalente em relevância à capacidade para lembrar. e na internet fala-se, não se escreve - pelo menos por enquanto. o que não quer dizer que não se possa e deva ler. por fim, é preciso relembrar que o mapa não é o território. a net é hoje o melhor dos mapas, mas ela não se substitui à experiência directa, ao contacto imediato com o concreto e com as suas misteriosas riquezas e murmúrios. citado no texto a que aludi, Sócrates lamenta que a escrita (e a leitura) diminuam a experiência do vivido oralmente e a sua consequente memória - ou seja, tornaria as pessoas mais preguiçosas e iludidas com o seu próprio conhecimento. cada salto tecnológico parece confirmar isto. e contudo, quando se salta aterra-se em território estranho e cada território é mais rico em possibilidades do que se podia antever quando flectimos os joelhos mentais. o truque, o busílis, está em nunca abandonarmos os passeios a pé mesmo quando dispomos de uma experiência de estimulação/simulação total ligada ao córtex cerebral que nos sirva de mapa - agora que podemos levar o mapa connosco, podemos talvez ter uma melhor percepção do que é, em si, uma percepção do mundo. a net dá-nos mais informação sobre o mundo mas nunca nos dará o mundo a que é necessariamente referente. quanto muito, dá-nos o mundo que ela própria constitui. a coisa está em como a lemos. porque, na verdade, não é apenas o que lemos que nos transforma, mas o modo como o fazemos. não interessa ler muito, se não vai ficar nada. parece melhor escolher apenas um caminho de início e percorrê-lo devagar. o salto acontece sem darmos muito por isso.
existem aqui diversos pontos válidos para discussão, mas não entrarei em profundidade em qualquer deles por agora. interessa ponderar contudo o seguinte: a internet tem semelhanças com um infindável mercado público, onde tudo ou quase tudo estivesse em maior ou menos exposição e à venda (por mui variados géneros de preços), pelo que as regras mais elementares de conduta num mercado real também se aplicam aqui, tal como sejam a discrição, a prudência, o sentido crítico na avaliação das mercadorias e do discurso - berrado ou sussurrado - do vendedor, a atenção ao que é dito e como é dito, o cuidado com os recantos mais sombreados, as zonas de silêncio súbito, as multidões, enfurecidas ou não, até as disputas ou execuções públicas. ou seja, cada um vai ao mercado com uma intenção diferente e de lá traz coisas diferentes. é tudo uma questão de disciplina. se não compramos tudo o que há num hipermercado apesar de eles estarem desenhados para esse efeito, também não "compramos" tudo o que há na net. podemos de facto entrar por causa de lenços de papel e sair de lá com vinho, mas cada um tem de medir a sua actuação e responsabilizar-se pelas suas tentações. ao contrário do que possa parecer, a net tem a vocação para se tornar uma arena de responsabilidade, já que tem memória de tudo. temos, assim, de nos tornar filtros para nós mesmos. em vez de diluir a atenção e prejudicar o sentido crítico, a net pode e deve estimular a concentração e a análise exigente - são aliás as únicas ferramentas que nos podem orientar nos labirintos mercantis. ou seja, o medo de que a net prejudique a nossa capacidade de reflexão profunda e acabe por nos tirar tempo ao dar-nos coisas instantaneamente advém de uma visão limitada do que é a experiência online, uma visão, digamos, um pouco retrógrada, porque no fundo totalmente hipnotizada pelas novas possibilidades sem as conseguir digerir ou sistematizar. porque justamente a internet permite um comportamento em tudo semelhante ao do estudioso paciente e sistemático - não se deve confundir falta de força de vontade com o sucumbir perante o assalto de certos dispositivos de marketing que se esforçam por fazer parecer que estão a acontecer coisas demais demasiado rapidamente e que por conseguinte teremos de agir sem demora (e sem critério), comprando ou falando. o tempo é um factor a favor da net, não contra ela. a escolha do que se lê permanece, acrescida da nova sapiência sobre a redacção oral, ou seja, a mais recente maneira das pessoas dialogarem, utilizando os processos e muletas dessa forma de comunicação, mas simplesmente fazendo-o por escrito, o que dá origem a um sem-número de equívocos, já que apenas a presença física é suficientemente rica para comunicar em plenitude sem ambiguidades não desejadas (nunca é só a boca que fala). ou seja, os famosos comentários em blogues ou trocas de opiniões em fóruns são muitas vezes tão válidos como conversas de café, apressadas, incoerentes e obscurecidas pelo ruído de fundo - estimulantes, essenciais, amiúde iluminadoras, mas também tão vivas que precisam de som e de vida tão curta que o seu registo é, as mais das vezes, imediatamente esquecido. o que não acontece aqui, neste mundo que nunca esquece. a capacidade para esquecer pode ser equivalente em relevância à capacidade para lembrar. e na internet fala-se, não se escreve - pelo menos por enquanto. o que não quer dizer que não se possa e deva ler. por fim, é preciso relembrar que o mapa não é o território. a net é hoje o melhor dos mapas, mas ela não se substitui à experiência directa, ao contacto imediato com o concreto e com as suas misteriosas riquezas e murmúrios. citado no texto a que aludi, Sócrates lamenta que a escrita (e a leitura) diminuam a experiência do vivido oralmente e a sua consequente memória - ou seja, tornaria as pessoas mais preguiçosas e iludidas com o seu próprio conhecimento. cada salto tecnológico parece confirmar isto. e contudo, quando se salta aterra-se em território estranho e cada território é mais rico em possibilidades do que se podia antever quando flectimos os joelhos mentais. o truque, o busílis, está em nunca abandonarmos os passeios a pé mesmo quando dispomos de uma experiência de estimulação/simulação total ligada ao córtex cerebral que nos sirva de mapa - agora que podemos levar o mapa connosco, podemos talvez ter uma melhor percepção do que é, em si, uma percepção do mundo. a net dá-nos mais informação sobre o mundo mas nunca nos dará o mundo a que é necessariamente referente. quanto muito, dá-nos o mundo que ela própria constitui. a coisa está em como a lemos. porque, na verdade, não é apenas o que lemos que nos transforma, mas o modo como o fazemos. não interessa ler muito, se não vai ficar nada. parece melhor escolher apenas um caminho de início e percorrê-lo devagar. o salto acontece sem darmos muito por isso.
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