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o comedor de tempo

o Corpus Clock apenas está certo de cinco em cinco minutos. mas já é o meu relógio preferido, porque representa o Tempo como ele é: a Morte.

o tempo e o cinema

"Although the assembly of the shots is responsible for the structure of the film, it does not, as is generally assumed, create its rhythm; the distinct time running through the shots makes the rhythm of the picture, and the rhythm is determined not by the length of edited pieces, but by the pressure of the time that runs through them. The pieces that won’t edit, that can’t be properly joined, are those which record a radically different kind of time."
- Andrei Tarkovsky

lá está.

roubado a warrenellis

peixes

O céu estava ainda mais alto do que era costume, por causa do azul não ser interrompido por nenhuma nuvem. O riacho corria preguiçosamente, a água transparente a fazer os pequenos ruídos que só a água fresca faz quando encontra obstáculos. À beira da sombra do sobreiro, ele estava sentado sobre uma grande pedra branca a segurar a cana de pesca com as duas mãos. Um enorme chapéu de palha redondo escondia-lhe as feições, mas os pés nus eram pálidos e tortuosos.
Quando ela chegou, não se mexeu.
- Estás a agarrar a cana com força demais. Assim os peixes não vêm.
- Porquê?
- Porque a tua tensão passa para a cana e dela para a água, e os peixes notam e fogem.
Ele fez por ignorá-la, a ela e à sua máquina fotográfica. Era um modelo relativamente antigo, que ainda usava película, mas ela tinha dito que era muito boa.
Agachou-se ao lado dele e começou a apontar a máquina em várias direcções sem disparar.
- Assim, tu é que afugentas os peixes.
- Não gostas de fotografias?
Ele encolheu os ombros. Gostava, mas não lhe apetecia dizer.
Ela sentou-se a alguma distância e virou a objectiva para ele.
- Acreditas naquela treta de as fotografias roubarem a alma às pessoas?
- Não.
- Eu também não, mas acho piada à ideia. De que a fotografia tem poder. Que tirar uma fotografia não é algo insignificante, desprezável. Apesar de se tirarem milhões de fotos todos os dias.
Ele olhou para ela, mas estava com a máquina pousada na saia, a olhar para a água.
- Acredito que tirar uma fotografia é enganar o tempo.
A sua voz era pausada.
- Como assim?
- É impossível parar o tempo, certo? Mas quando se fotografa, é como se se estivesse a congelá-lo durante um instante infinitesimal, a roubar-lhe um momento que era dele e agora é nosso.
- Pois.
Sentia-se pegajoso com o calor. Não havia outro som senão o som deles.
Depois, ela levantou-se com mais energia do que seria de supor e voltou-lhe as costas.
- O tempo, para mim, é como o teu riacho, mas cheio, cheio de peixes. Fotografar é como estar a olhar para ele e pescar um peixe de vez em quando. O riacho não pára, mas já não é exactamente o mesmo depois. Com tantos peixes que leva, ninguém nota a diferença. Mas leva um a menos.
Ele continuou a segurar a cana com força. Tinha as mãos a suar e a sensação que, se afrouxasse a pressão por pouco que fosse, ela escorregaria e seria levada pela água transparente.

sozinho no ano 1000: que fazer?

sempre achei fascinante o tema das viagens no tempo e os problemas que daí derivam (começando na questão de serem ou não concebíveis). no site marginal revolution, um leitor pediu à comunidade conselhos úteis sobre como agir, caso fosse acidentalmente transportado para a Europa do séc. XI, vestido apenas com a sua roupa e conhecimentos. os comentários são muitos e variam naturalmente entre os mais pragmáticos, doutos e sérios e os alucinados e humorísticos. vale a pena dar uma olhadela e, porque não, acrescentar algumas sugestões.
merece alguma reflexão apercebermo-nos daquilo que realmente sabemos (ou nos lembramos, em dado momento) e do que isso vale, em termos de sobrevivência e co-existência com outros (mais ou menos "evoluídos"). (re)ler regularmente manuais práticos e enciclopédias parece uma boa dica, em geral. outra coisa interessante é que é uma questão teórica radicalmente diferente da que trata de sobrevivermos sozinhos numa ilha deserta com aquilo que sabemos, por exemplo - no caso presente, o facto de haver (muitas) outras pessoas pode ser... fatal.
excertos:
>"Learn the basics of making soap. Even if you can't convince anyone else about good sanitation, you can still wash your hands."
>"Didn't Bruce Campbell and Sam Raimi already answer this question in Army of Darkness? Just make sure you bring a shotgun, a chemistry textbook, and an Oldsmobile."
>"I'd try to go for one single important contribution -- invent the printing press and movable type, and from there, if you still have time after running your business (if you've survived that long at all), start writing and selling books with generic information that you have in your head, like as much modern mathematics as you know (that should be safe) and as much science and engineering knowledge as you can spew out without getting yourself killed."
>"[...] Medicine: I am thinking that the average person today has enough medical knowledge that they may know as much as the doctors in the year 1000. Basic stuff, keep the cut clean, how to set a broken bone, how to keep sick people isolated. Maybe have the people start identify plants as treatment for diseases; I know the bark of the willow tree has pain reliving ingredients in it."
>"1. Steal a horse.2. Head for Byzantium, Arabia, or China, as fast as said horse can carry you."
>"I think it's probably a lot harder than people expect. My best guess would be get killed by disease or irate peasants within 3 days."

(via boingboing)

so long, and thankz for all the fish


nestes tempos interessantes em que vivemos (na acepção da antiga maldição chinesa), vale a pena virar a nossa atenção para os great outdoors e ficarmos um pouco mais cientes de que somos apenas uma partícula no espaço. por exemplo, fiquei a saber que se podem ter descoberto indícios que houve um tempo antes do Big Bang e que este universo pode ter sido gerado por outro. ou seja, que esta coisa de universos pode ser uma espécie de máquina auto-replicadora, o que simultaneamente confirmaria a teoria da "seta do tempo" (porque é que ele se mexe numa única direcção) e a ideia de que o tempo nunca terá termo. aqui podem ler as fascinantes descobertas dos cientistas e aqui as reflexões que elas sugerem ao warren, o eterno optimista.
uma outra noticiazinha é ligeiramente mais preocupante. parece que o campo magnético terrestre tem vindo a perder intensidade e que, para além de reverter a polaridade da Terra súbita e inexplicavelmente de tempos a tempos, deixando-nos indefesos no período em que se processa a reversão, ele é a nossa única protecção contra uma saraivada constante de partículas solares que, por aí à solta, nos incomodariam certamente mais do que apenas estragar os telemóveis. aparentemente, temos 500 anos até o campo desaparecer.
portanto, meninos e meninas, é aproveitar enquanto há. pode ser que venha a haver para sempre, mas já não será para nós (humanos). relativizemos as coisas, dado que somos uma média estatística. aprendamos com a aleatoriedade porque, se calhar, não há aleatoriedade.